Este website apresenta uma das maiores bases de dados sobre plantas do litoral brasileiro, com chaves de identificação, descrições de espécies e milhares de imagens.

Chaves de identificação e mais imagens em breve.


Última atualização em 11/12/2012



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eFlora de um trecho do Litoral Norte de Sergipe, de autoria de J. E. Nascimento-Jr, M. C. E. Amaral & V. Bittrich, é licenciada sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial 3.0 Unported

Bem vindo ao website da Flora de um trecho do Litoral Norte de Sergipe, Brasil


Este website traz chaves de identificação e tratamentos taxonômicos para cerca de 85 famílias e 300 espécies de plantas vasculares encontradas em parte do litoral sergipano. Os dados que usamos para construir esse website foram levantados durante o mestrado de José Nascimento-Jr, desenvolvido na Universidade Estadual de Campinas sob orientação de Maria do Carmo Estanislau do Amaral e Volker Bittrich. As facilidades de uso fornecidas pelas chaves interativas de identificação criadas através do software Lucid, além do amplo uso de imagens, tornam nosso trabalho bastante acessível não só para taxonomistas experientes, mas também para ecólogos, zoólogos e outros profissionais que necessitem de identificações botânicas ocasionais, além de botânicos amadores e demais interessando no tema.

Campo fechado não inundável na anteduna (acima) e riacho em campo fechado inundável em meio a restinga arbustiva após as dunas (abaixo).

    Você pode navegar no website através dos links abaixo:

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          Nossa área de estudo
          Nossos resutados
                  Quais as vegetações são encontradas na área que estudamos?
                            Vegetações das antedunas
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                            A floresta inundável
                            Os manguezais
                            As restingas arbustivas
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          Refências bibliográficas citadas neste website




        O que são restingas?

   Na maior parte da costa brasileira - em cerca de 5.000 dos 9.000 km de extensão - , na zona adjacente ao mar e algumas vezes alongando-se vários quilômetros continente adentro, é encontrada uma vegetação sobre solos arenosos de origem quaternária comumente chamada de restinga (Araújo 1992; Sonehara 2005). Entre as características mais acentuadas das restingas estão à presença de um solo arenoso pobre em nutrientes e bem drenado, com exceção de depressões entre cordões arenosos nas quais frequentemente se formam lagoas nos períodos chuvosos. A restinga também é marcada por uma forte zonação da vegetação, o que causa uma grande heterogeneidade fitofisionômica, com variações que vão de campos abertos a até mesmo florestas com dossel compacto. Embora as razões da variação não sejam completamente conhecidas, geralmente elas são atribuídas a variações no teor de sal e nutrientes no solo, a presença de lençóis freáticos superficiais, ao nível de exposição aos fortes ventos que vêm do mar e mesmo a interações entre espécies (Joly 1970; Jefferies & Davy 1979; Franco et al 1984; Henriques et al 1986; Menezes & Araujo 1999; Cuzzuol & Campos 2001; Carvalho et al 2005; Lourenço-Jr & Cuzzuol 2009).

   Em relação a sua flora, atualmente são reconhecidos relativamente poucos endemismos para a restinga, especialmente quando compara-se com a vizinha mata atlântica. Alguns autores, como Rizzini (1997) e Scarano (2002), sugeriram que o baixo números de endemismos das restingas estaria relacionado aos sedimentos jovens sobre os quais essas plantas crescem, e, portanto não haveria tempo suficiente para a especiação. Por outro lado, é preciso observar que as plantas das restingas encontram fáceis rotas de dispersão, como o mar ou aves migratórias, o que poderia contribuir para a rápida disseminação de propágulos das espécies que ali se originassem. E apesar do baixo número de endemismos conhecido atualmente, a flora das restingas possui uma elevada riqueza de espécies, sendo que os números mais recentes giram em torno de 1600 espécies (Restinga.net). Por fim, acredita-se que a flora das restingas seja originada quase inteiramente a partir de outros tipos vegetacionais, especialmente da vizinha mata atlântica, da caatinga e dos campos rupestres. No entanto, essas afirmações são de novo baseadas principalmente na premissa de que os sedimentos recentes não teriam tempo para sustentar uma flora própria. Infelizmente, estudos filogeográficos detalhados abordando a diversificação e dispersão de táxons vegetais no Brasil são muito raros, e sem estudos desse tipo as afirmações sobre as possíveis origens das espécies das restingas não passam de hipóteses a serem testadas.

   Em uma recente revisão sobre o uso deste termo, Souza et al (2005) defendem que o uso da palavra "restinga" em referência a vegetação é incorreto, e entre os principais argumentos que usam estão o fato dela não ser usada em nenhum outro país de língua portuguesa e também por "restinga" ter seu sentido original ligado a geologia, sendo usada para designar projeções arenosas paralelas ao mar (Souza et al 2005), tendo assim significado equivalente a barrier islands ("ilhas barreiras"). Por outro lado, "restinga" tem sido usada em referência a vegetação das areias quaternárias costeiras desde o inicio do século XX, com popularidade cada vez mais crescente nos trabalhos científicos nas últimas três décadas. Além disso, "restinga" é utilizada num contexto vegetacional em várias leis brasileiras. Por conta dessas últimas razões e também para evitar a demasiada (e até certo ponto desnecessária) proliferação de conceitos, defendemos o uso da palavra "restinga" para designar o complexo vegetacional que cresce sobre as areias quaternárias da costa brasileira.



        Manguezais

   Os manguezais representam, na classificação de Walter (1986), o bioma de floresta pluvial tropical, paludosa, marítima, do halo-helobioma I, e são encontrados às margens de baías, lagunas e em estuários de rios, podendo avançar vários quilômetros em direção ao continente pelas margens dos rios, ocupando cerca de 8 % da linha costeira do mundo e 25 % da costa dos trópicos (Spalding et al 1997). No Brasil, os manguezais são encontrados desde o litoral do Amapá, na região Norte, até Santa Catarina, o Sul (Lamberti 1969; Lacerda 1999). Manguezal no Rio Pomonga

   A elevada produtividade biológica dos manguezais (Golley et al 1962; Heald 1969), aliada a suas águas calmas fazem desse bioma um bom local de nidificação para espécies marinhas e terrestres (Odum 1988; Camargo 1994), sendo por isso conhecidos como "berçários costeiros". Adaptações como morfofisiológicas (glândulas excretoras de sal, raízes escoras e pneumatóforos, viviparidade, entre outras) tornam possível a sobrevivência das plantas nos solos sujeitos a mudanças morfológicas, lodosos, salinos e com baixo teor de oxigênio dos manguezais (Cintron-Molero & Schaeffer-Novelli 1992). As plantas do manguezal podem ser divididas em três grupos (Tomlinson 1986):

  • Elementos principais: possuem adaptações morfofisiológicas que permitem que dominem estruturalmente o ambiente, e de modo geral são restritas aos manguezais. Além disso, possuem certo isolamento taxonômico dos demais membros de suas famílias;
  • Elementos secundários: ocupam os hábitats periféricos, raramente formando comunidades puras ou dominando a estrutura da vegetação;
  • Espécies associadas aos manguezais: habitam os ambientes de transição dos manguezais. A depender da baixa salinidade do solo, o número de espécies pode ser elevado. Conocarpus erectus L., comum nos manguezais brasileiros, é considerada uma espécie associada ao manguezal.

   No Novo Mundo ocorrem apenas 10 das espécies dos elementos primário e secundário, as quais se distribuem em seis gêneros e cinco famílias (Cintron-Molero & Schaeffer-Novelli 1992). Ao contrário dos manguezais asiáticos, que são ricos em espécies de plantas, na costa atlântica geralmente os manguezais são dominados por duas espécies (rizofora mangle e avicenia germinans), as quais podem corresponder a até 80 % dos manguezais brasileiros (Blasco et al 1996).

   Em Sergipe, os manguezais penetram até 20 km em direção ao interior, acompanhando os cursos dos rios (Souza 2011 B), e as principais ameaças que sofre no estado são a expansão da especulação imobiliária, a implementação de fazendas de camarão (carcinicultura) e o despejo de esgotos de origem doméstica e industrial (Alves & Garcia 2006; Souza 2011 A e B).


        Nossa área de estudo

   Nós realizamos nosso estudo em uma das Áreas-Chave para Biodiversidade no Brasil (Giulietti et al., 2009) localizada nos municípios de Barra dos Coqueiros e Santo Amaro das Brotas, no estado de Sergipe, com área de aproximadamente 2.200 ha (ver mapa abaixo). Nesta região está prevista a implantação do Parque Estadual das Dunas de Sergipe. Além da área do futuro parque, incluímos a praia adjacente na amostragem para compreendermos de forma mais completa o zoneamento da vegetação local. A região possui clima sazonal, com inverno chuvoso e verão seco e temperatura mínima de 21 °C e máxima de 31 °C, embora ocasionalmente sejam registradas temperaturas de até 36 °C. A pluviosidade anual varia de 1600 a 1700 mm (Semarh-SE 2011).

Clique aqui para visualizar a região no Google MapasLocalização da área de estudo: A. Brasil, com destaque para a região Nordeste e o estado de Sergipe; B. Sergipe, com divisões políticas do litoral. O círculo vermelho indica os municípios de Barra dos Coqueiros e Santo Amaro das Brotas; C. Áreas estudadas: limites do futuro Parque Estadual das Dunas de Sergipe e praia adjacente.


        Os resultados

            Vegetações

   Na área do Parque Estadual das Dunas é encontrado o típico zoneamento já descrito para o litoral arenoso brasileiro (Rizzini 1997, entre outros): praia (zona se vegetação), antedunas, dunas e restinga arbustiva com lagoas. Em cada uma dessas zonas podem ser encontrados vários tipos de vegetações distintos, tornando toda a região altamente heterogênea.

   Uma das principais diferenças fitofisionômicas entre o trecho de litoral estudado e aqueles localizados no Sudeste e Sul do país é a ausência de florestas de restingas bem definidas, com um estrato arbóreo com dossel contínuo. Quando muito, encontramos pequenos agrupamentos de árvores próximos aos cursos d'água. A ausência de uma floresta tem implicações na composição florística principalmente na baixa quantidade de espécies de samambaias, Bromeliaceae e Orchidaceae, grupos com um elevado número de epífitas nas florestas de restinga.

   A seguir, uma breve descrição das zonas do litoral estudado, com considerações sobre as fitofisionomias encontradas em cada uma delas.


            Anteduna

   Poucos metros após a linha de maré, a vegetação de campo aberto não inundável é constituída de poucas espécies, a maior parte rizomatosas ou estoloníferas, destacando-se Alternanthera littoralis var. maritima (Mart.) Pedersen, Blutaparon portulacoides (A.St.-Hil.) Mears, Ipomoea pes-caprae (L.) R.Br., Ipomoea imperati (Vahl) Griseb., Paspalum maritimum Trin., Polygala cyparissias A.St.-Hil. & Moq. e Remirea maritima Aubl.

Campo aberto não inundável (acima), campo fechado não inundável com moitas espaçadas (centro) e campo fechado não inundável(abaixo).

   As espécies que ocorrem mais próximo ao mar tendem a ter folhas carnosas como adaptação ao estresse salino (Joly 1970). Embora possuam a capacidade de ocupar solos com certa salinidade, muitas dessas espécies não podem ser verdadeiramente chamadas de halófitas, uma vez que o nível de salinidade dos solos dessas áreas não interfere de forma marcante no desenvolvimento das plantas (Larcher 2000; Medina et 2008).

   À medida que aumenta a distância em relação ao mar, a cobertura vegetal torna-se contínua e a riqueza de espécies aumenta (Fig. 2 B). São comuns manchas monoespecíficas de Chamaecrista ramosa (Vogel) H.S.Irwin & Barneby, Conocliniopsis prasiifolia (DC.) R.M.King & H.Rob. e Indigofera microcarpa Desv. Entre as espécies mais comuns na anteduna estão as Cactaceae Cereus fernambucensis Lem. e Pilosocereus catingicola (Gürke) Byles & Rowley subsp. salvadorensis (Werderm.) Zappi, que embora também ocorram em locais mais afastados do mar, são muito mais abundantes na anteduna.

   A cobertura vegetal da anteduna é basicamente formada por ervas e subarbustos, sendo que quase toda cobertura lenhosa é reduzida a moitas, que são agrupamentos densos de árvores e arbustos nos quais as ervas estão presentes de forma conspícua apenas nas bordas. Uma das espécies mais comum das moitas das antedunas é Byrsonima intermedia A.Juss., arbusto que confere às moitas o seu aspecto globoso. Outras moitas são formadas principalmente por Chrysobalanus icaco L., e estas não possuem o formado globoso das moitas de B. intermedia, variando de 0,5 a 2 m de altura e presentes principalmente em solos mais úmidos. Uma vez que essas moitas não não numerosas, existindo apenas de forma isolada em meio a vegetação campestre, preferimos não classifica-las como fruticeto aberto, vegetação que ocorre após as dunas.

   Nas anteduna são comuns também os campos fechados inundáveis crescendo em locais nos quais a água acumula na estação chuvosa. Nesse campos predominam as espécies Eleocharis geniculata (L.) Roem. & Schult., Eleocharis minima Kunth e Rhynchospora riparia (Nees) Boeckeler, plantas associadas a áreas alagáveis mas que permanecem vivas quando o solo se torna seco.

   A faixa de anteduna do área possui largura variável, e de modo geral é limitada pela rodovia SE 206.


            Dunas

   As dunas que estudamos possuem natureza tanto móvel, em áreas não cobertas pela vegetação, como fixas, nos locais nos quais a vegetação conseguiu se estabelecer e formar fruticetos fechados bem definidos. As dunas são elementos bastante conspícuos na paisagem, algumas delas alcançando atualmente até 25 m de altura, formando uma faixa relativamente curta e estreita, medindo aproximadamente 3,5 km de comprimento e 350 m de largura.

Fruticetos fechados não inundáveis nos topos das dunas (acima) e campo aberto não inundável formado principalmente por Cyperus maritimus.

   Nas dunas com pequena inclinação a vegetação é ausente ou então constituída por campos abertos não inundáveis, nos quais Cyperus maritimus Poir. é a espécie mais conspícua. A presença de antigos rizomas desta espécie por toda a área atesta a constante movimentação das areias do local, que permite a sobrevivência de apenas algumas poucas espécies, como a estolonífera Macroptilium panduratum (Mart. ex Benth.) Maréchal & Baudet. Juntamente aos campos abertos inundáveis halófitos, que receberão tratamento posteriormente neste texto, esse é o tipo de vegetação com menor riqueza especifica.

   Na região posterior das dunas, nos locais mais protegidos pelos fortes ventos que sopram do mar, a vegetação é mais densa e é possível encontrar fruticetos fechados não inundáveis. Nessa vegetação são comuns, entre outras, Anthurium affine Schott, Byrsonima gardnerana A.Juss., Inga ciliata C.Presl, Philodendron acutatum Schott e Serjania salzmanniana Schltdl. Em alguns desses fruticetos podem ser encontradas árvores com até 7 m de altura, a exemplo de Cecropia pachystachya Trécul e Protium heptaphyllum (Aubl.) Marchand. Além desses locais, existem fruticetos fechados não inundávis ocupando as encostas e principalmente os topos das dunas mais elevadas. Esses fruticetos mais expostos ao vento geralmente possuem pequenas dimensões, dificilmente ultrapassando os 70 m de diâmetro, e de modo geral apresentam flora similar aos fruticetos com maior área.

   Após as dunas, numa estreita faixa de aproximadamente 100 m de largura, a vegetação é caracterizada pela presença de arbustos, arvoretas e pequenas moitas espaçadas inseridas numa matriz de gramíneas e outras ervas (Fig. 2 D), caracterizando o fruticeto aberto não inundável. Essa faixa é mais aberta muito provavelmente devido a intervenções humanas, tais como o plantio de coqueiros e corte da vegetação para a colheita de lenha. Ervas e subarbustos frequentemente considerados plantas ruderais ocorrem em abundância nesses locais nos quais a vegetação foi suprimida, mas nota-se a grande quantidade de moitas arbustivas, as quais parecem estar bastante relacionadas à regeneração de áreas de restinga (Vieira et al 2009).

   As espécies arbustivo-arbóreas mais abundantes são Byrsonima sericea DC., Byrsonima intermedia, Anacardium occidentale, Schinus terebinthifolius Raddi e Hancornia speciosa Gomes. Entre as ervas e subarbustos, destacam-se Chamaecrista hispidula (Vahl) H.S.Irwin & Barneby, Euphorbia hyssopifolia L., Pavonia humifusa A.St.-Hil., Staelia sp., e Axonopus aureus P.Beauv.


            Floresta inundável

   Após a vegetação arbustiva aberta, em uma estreita faixa de aproximadamente 1,5 km de comprimento e 150 m de lagura, é encontrada uma floresta inundável de restinga (Fig. 2 E) dominada pela árvore Symphonia globulifera L.f. e pela erva de grande porte Montrichardia linifera (Arruda) Schott. Nós não registramos outras espécies arbóreas no local a não ser S. globulifera, espécie que comumente forma florestas monoespecíficas em outras áreas do país (Lorenzi). A aparente baixa riqueza desta floresta não é um resultado definitivo, uma vez que a floresta inundável foi o tipo de vegetação menos amostrado durante nosso estudo.

Visão geral da floresta inundável (esquerda) e borda (direita).

   A floresta inundável possui dossel com cerca de 12 m de altura. Essas florestas ocorrem apenas nas áreas de depressão, onde o lençol freático é muito superficial e transborda com facilidade (Silva e Britez, 2005).


            Apicuns e manguezal

   Além das zonas geralmente referidas para o litoral, a cerca de 1000 m após as dunas e antes da restinga arbustiva, a paisagem é bruscamente modificada pela presença do rio Pomonga, um canal natural (mas alargado artificialmente para permitir a navegação) que liga os rios Japaratuba, no norte de Sergipe, ao rio Sergipe, no litoral Centro do estado.

Maguezal (acima) e apicum (abaixo).

   As margens do rio Pomonga são cobertas por um manguezal (floresta inundável halófita), no qual crescem basicamente três espécies arbustivo-arbórreas: Conocarpus erectus L., Laguncularia racemosa (L.) C.F.Gaertn. e Rhizophora mangle L. O baixo número de espécies pode ser considerado um padrão para os manguezais neotropicais (Rizzini, 1997). Além disso, não encontramos epífitas no manguezal que estudamos, embora essas plantas sejam relativamente comuns em outros manguezais (Andrade & Lamberti 1965; Catharino & Barros 2004; Moraes et al 2008).

   Adjacente ao manguezal e em contato com a floresta inundável (a leste) e com a restinga arbustiva (a oeste) existem planícies arenosas indundadas periodicamente conforme o regime da maré. Essas planícies são frequentemente chamadas ?apicuns? e possuem uma escassa vegetação de campo aberto inundável halófito. Poucas espécies são capazes de crescer nesses solos excessivamente salinos, entre elas Alternanthera sp. e Laurembergia tetrandra (Schott) Kanitz. Os apicuns do trecho de litoral que estudamos possuem entre 200 e 1000 m de largura, e estão entre os locais com mais baixa riqueza da área, fato resultante principalmente da elevada salinidade do solo (Jesus & Hadlich, 2009).


            Restinga arbustiva

   Duas feições principais podem ser identificadas após o manguezal: fruticeto aberto não inundável e fruticeto fechado não inundável. As fisionomias abustivas abertas e fechadas não ocorrem em zonas bem definidas, se intercalando por toda a região após o rio Pomonga.

Fruticeto fechado não inundável (canto superior esquerdo), fruticeto aberto não inundável (canto superior direito), fruticeto aberto não inundável próximo às dunas (canto inferior esquerdo) e lagoa entre vegetação arbustiva (canto inferior direito).

   De modo geral, a maior parte do fruticeto fechado não inundável encontra-se nas proximidades das lagoas e pequenos cursos d?água dispersos na área, enquanto que o fruticeto aberto não inundável ocupa uma área maior e em locais mias afastados da água.

   A composição florística das duas vegetações difere principalmente em relação as Eriocaulaceae e a outras ervas de pequeno porte, presença comum nos solos descobertos entre as moitas do fruticeto aberto e ausentes no fruticeto fechado. Além disso, árvores como Diospyros gaultheriifolia Mart. ex Miq., Ocotea notata (Nees & Mart.) Mez, Ouratea sp. e Tetragastris occhionii (Rizzini) Daly ocorrem isoladamente no fruticeto fechado e são quase ausentes no fruticeto aberto.

   Os fruticetos são os tipos de vegetação com maior riqueza na área, principalmente devido à diminuição dos fatores adversos ao desenvolvimento vegetal, tais como fortes ventos e elevada salinidade do solo, os quais afetam com maior intensidade as áreas mais próximas ao mar.

   Em meio aos fruticetos existe uma lagoa temporária medindo aproximadamente 3,5 km de comprimento e 150 m de largura, além de outras lagoas temporárias menores. As margens destas lagoas e demais cursos d?água possuem várias espécies que podem ser encontradas apenas neste ambientes, a exemplo de Blechnum serrulatum Rich., Bonnetia stricta (Nees) Nees & Mart., Gaylussacia brasiliensis (Spreng.) Meisn., Mayaca fluviatilis Aubl., Sauvagesia sprengelii A.St.-Hil., Sauvagesia sp., Syngonanthus gracilis (Bong.) Ruhland e as Utricularia spp. Em relação as plantas exclusivamente aquáticas, são comuns principalmente Nymphoides indica (L.) Kuntze (encontrada ocasionalmente crescendo no solo seco de lagoas temporárias), Nymphaea pulchella DC e Eichhornia paniculata (Spreng.) Solms.


        A flora

   Não tínhamos a pretensão de registrar todas as espécies da área em tão pouco tempo de estudo, até mesmo porque comunidades ecológicas são sistemas abertos sujeitos a entrada e saída de espécies a todo o momento. Dessa forma, coletamos na área estudada um total de 271 espécies de plantas vasculares, as quais se distribuem em 198 gêneros e 82 famílias (clique aqui para acessar a lista de espécies). Apenas quatro espécies são monilófitas, sendo que duas delas (Blechnum serrulatum Rich. e Serpocaulon triseriale (Sw.) A.R.Sm.) são comuns em áreas de restingas (Santos et al 2004). A 15 famílias mais ricas possuem em conjunto 150 espécies na área (enquanto as outras 67 famílias somam 121 espécies), evidenciando a importância de poucos grupos para a riqueza total da restinga que estudamos. As famílias mais ricas da área, bem como seus números de espécies, podem ser conferidas na Figura 3.

   A maior parte das espécies habita as vegetações arbustivas abertas, e apenas cinco são encontradas nos manguezais (Figura 4; ver Tabela 1 para detalhes). Nas vegetações arbustivas abertas ocorrem muitas das espécies arbustivo-arbóreas encontradas nas áreas mais densas, e por também possuirem muitas manchas de solo descoberto com bastante luminosidade, oferecem condições adequadas para o crescimento das ervas e subarbustos que crescem no campos.

   Se levarmos em consideração a maior lista de espécies disponível para as restingas brasileiras , na qual constam aproximadamente 1600 espécies, podemos considerar o trecho de litoral que estudamos bastante rico, já que numa pequena área de apenas 2400 ha podemos encontrar cerca de 16 % do número total de espécies conhecido até o momento para a restinga brasileira. Analisamos outras publicações sobre as restingas e em poucas delas foi encontrado um número tão elevado de espécies para uma única área. É difícil afirmar a causa dessa variação na riqueza em larga escala, e parece ser prudente, a princípio, não considerar nenhum local do litoral brasileiro como centro de endemismo ou de riqueza. A variação na riqueza pode estar ligada, por exemplo, ao baixo esforço amostral em alguns estudos ou simplesmente ao efeito museu. Um dos melhores exemplos disso são as restingas fluminenses, que são, até onde se sabe, as mais ricas do país. Essa riqueza elevada pode ser reflexo do efeito museu, uma vez que as restingas do Rio de Janeiro têm sido estudadas intensivamente por vários pesquisadores desde a década de 1970.



        Referências

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Sugestão para citações

Nascimento-Jr, J. E., Amaral, M. C. E. & Bittrich, V. 2012. Flora de um trecho do Litoral Norte de Sergipe, Brasil (continuamente atualizado). Universidade Estadual de Campinas. Disponível em http://floras.cna.unicamp.br/floralitoralsergipe, acesso em: dia/mês/ano.



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